There’s a light that never goes out

Teus olhos, teu ócio. Meu momento de desconstrução.

‘Foste aonde, o que fizeste? Com quem falaste, o que sentiste? Não vá, não vá. Fique aqui por enquanto.’

Fecho a porta e saco a chave. Daqui ninguém sairá incólume.

Nos olhos têm lágrimas. Pequenos pontos perolados percorrendo o curto caminho de sua face até o chão.

No canto de sua boca um filete escarlate perece, uma marca quase inidônea, prova irrefutável do nosso crime. Vejo, pois, que o seu sangue, tão vulgar, tão diferente daquela pele alva que tanto admirei, cai em pequenas gotículas do corte em seu lábio.

Ela segue acuada, como animal assustado pelo barulho, apenas aqueles olhos-grandes-verdes-perolados me acusando, me julgando, como se o crime aqui cometido fosse meu. Queria calar aquele par de olhos inquisidores, queria afogá-los em sua própria desgraça, depredá-los como um vândalo bêbado faria com o banheiro d’um bar. Mas eles eram tão solenes! Em sua quietude representavam a melhor parte de mim, de nós. Olhos estúpidos, injustos.

Imaginei, como fazemos às vezes nos momentos mais improváveis, como estaria eu parecendo na visão da criatura cujo sangue agora brotava com mais força dos lábios partidos. Um louco, pupila ampliada e pintada em vermelho, saliva presa à barba ainda por fazer, punhos em riste reivindicando algo sem fundamento. Pesadelo provindo das mais profundas barbáries, que, covarde, covarde, seguia através do mundo como um cigano da dor. Assisti, absorto, eras de injustiças sendo cometidas pelas mãos que reconheci como minhas. Bebi a alma do demônio que havia me tornado, e gostei do que senti.

Caminhava à sua frente como numa marcha militar, cada batida de meus pés no malfadado assoalho causando um tamborilar agradável. Notei que ela tremia. Sei que não tremia por medo; nossa heroína não sente medo. Seu corpo tinha espasmos por raiva. O mais genuíno dos sentimentos, senhoras e senhores, aqui representado por essa excelente espécime humana do sexo feminino, estatura mediana, olhos verdes e sangue púrpura. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, vendida para o senhor-demônio de punhos vermelhos à mesa dois.

Seu olhar seguia inexoravelmente ligado ao meu. Como se houvesse ali uma corrente intangível formulada especialmente para impedir que nos desencontrássemos. Calmamente, sentei-me ao seu lado. Ela estremeceu e suspirou de leve, um estremecimento e um suspiro tão absolutamente previsíveis e patéticos que eu, o senhor-demônio, ri.  Levantei-me num salto e ri em longas tragadas, como se apreciasse um caro charuto. Meu abdômen doía quando notei que ela havia se posto de pé, também. Seu rosto parecia murcho, esvaziado, porém sereno.

Como eu gostaria de ouvir sua voz. Como eu queria! Ouvir aquela música ferina roçando meus ouvidos mais uma vez, o canto espectral das banshees, a solene ópera da nossa dança da morte.  O som que numa nota destruiria os nossos mundos.

‘Vá embora, eu te odeio, vá embora, por favor…’

Calei-a num movimento ríspido de mão. O baque surdo seguiu suspenso sobre nós, uma bolha estúpida. A bochecha sempre alva e levemente rosada, bochecha a qual meus lábios muitas vezes brindaram e meus dedos roçaram, instantaneamente pintou-se de vermelho vivo. Lágrima solitária fugiu de seu olho, lágrima corajosa.

Puxei sua mão junto a minha. Ela primeira resistiu infantilmente, mas só foi manter o ímpeto para ela permitir que meus dedos se acasulassem entre os seus. Ela estava fria. Muito fria. Tocar em sua pele parecia apalpar uma macia crosta de gelo ártico. Embora estivesse visivelmente vermelha, sua temperatura ainda assim era congelante. Que criatura fascinante!

‘E se um ônibus de dois andares batesse em nós? Morrer ao seu lado é uma maneira tão angelical de morrer!’

‘E se um caminhão de dez toneladas matasse a nós dois? Morrer ao seu lado é um prazer e privilégio para mim!

Enquanto eu cantarolava, ela se remexia em busca de algum conforto murmurando palavras inaudíveis. Era uma cena, de certa maneira, engraçada e tive que me esforçar descomunalmente para não ter outra crise de riso.

‘Você ama The Smiths, não ama, querida?’

‘Monstro, você é um monstro! Como eu pude ficar tanto tempo com você?!’

Acertei seu belo rosto novamente, dessa vez com força. A mão aberta fez ressoar um barulho de trovão, trilha sonora peculiar para dor. Doía nela, sei bem, portanto doía em mim. Eu vivo na medida de sua existência. Nós mantínhamos a proporção.

Não houve lágrimas. Sem gritos, nem pranto, nem desespero. Dessa vez ela sorriu, riso tão deslumbrante, riso de lua, riso do gato de Chesire. Ela sabia. Ela sabia que o inferno são os outros.

:.:.:

Era um zumbido incômodo no começo, mas veio a se tornar, de certa forma, um cavaleiro da desgraça. O som rítmico da sirene da polícia despertou os nossos instintos. À ela esperança; a mim indecisão. Nós dois estávamos com frio demais. Precisávamos esquentar.

Beije-lhe a fronte e a abandonei lá, lacrimosa, enquanto vasculhava os armários da cozinha em busca de um precioso líquido. Rapidamente o achei, prata, pronto para nos libertar.

Ao voltar à sala, encontrei o meu gato de Chesire em pé, segurando um longa e enferrujada tesoura em forma de ataque. Quando notou o frasco de álcool que eu segurava, li pavor em seus olhos.

‘Largue isso, você está louco, pelo amor de Deus…’

‘Você está com frio, querida. Em vi por suas mãos.’

‘Você vai matar nós dois e o edifício inteiro! Largue isso ou juro que te mato! Por favor, as coisas não precisam terminar assim.’

Eu brincava sorrateiramente com o isqueiro dourado que, ironicamente, ela me deu semanas atrás.

‘Mal feito, feito, querida. Você deveria saber que não há descanso para os amaldiçoados.’

Ela, muita mais ágil que eu, cravou num movimento a tesoura em meu ombro esquerdo. Uma lingueta de fogo prontamente tomou este lado do meu corpo. Com o quadril, num giro rápido, derrubei-a no chão, e ajoelhando-me como numa oração, prontamente minhas mãos brincando com seu pescoço fino e pulsante.

Beijei-lhe os lábios uma última vez. Seu rosto marcou-se em uma contração de nojo.

‘Sabe qual é a coisa mais engraçada disso tudo? O grande final para a grande piada? Você não tem a mínima ideia do porque isso estar acontecendo. Você me cegou a agora morrerá de olhos vendados.

Cantarolando Beatles, comecei a chuva de álcool sobre os móveis, sobre o chão, dei-me ao trabalho de fazer uma enxuta trilha do líquido prateado até o botijão de gás que jazia a sós na cozinha, e, finalmente, sobre nossos corpos.

Tentei forçar um último abraço. Para minha surpresa, ela retribuiu.

Num clique, a chama brilhou.

Batidas e gritos e ameaças vinham da porta não muito longe de nós.

Por mais alguns segundos resisti ao peso irresistível do aparelho dourado em minha mão. Ao, finalmente, sentir a respiração ao meu lado se suspender, pereci, e instantaneamente o mundo virou tão dourado quanto o isqueiro.

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Fuga

Vá-se enquanto ainda pode ir.

Pois tornar-se-á prisioneiro de tua própria prisão.

O crime que há de cometer está por vir;

Tem boca e olhos e visão.

 

Não te caberá julgamento, não te caberá defesa;

Ela é o juiz, o júri e o executor.

Cada ação tua será motivo de tristeza.

Cada amor teu será punido com ardor.

 

Não exista na proporção de sua existência,

Vá além, tolo amigo, fuja da dor.

Ainda lhe restam motivos para resistência

É possível vencer batalhas com o Amor.

 

Transformar-se-á em vampiro da nitidez;

Disputará batalhas de atenção.

Gritará em momentos de insensatez;

Chorará de raiva e tensão.

 

Então, tolo amigo, fique atento:

Feche a porta para tal sentimento.

Deixo-o lá fora, no relento,

Não permita ele ficar aí dentro.

 

Pois ele é quente, forte e insensível:

Faz até o mais sábio pairar em perigo.

Porém, seu encanto é resistível,

Basta ouvir este seu velho amigo:

 

Grite num uivo de liberdade;

Entenda-se como livre, não covarde.

Não afague a mão do carrasco invencível;

Eis que ele não o faria, possível.

 

Não se esqueça, a porta da prisão ainda jaz aberta.

Posto que a chave, única, somente a ti cabe.

Não deixe que tornem teu futuro uma incerta.

Pois o teu futuro é somente teu, até onde se sabe.

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Prólogo

O SEXTO

PRÓLOGO:

Sophia olhou-se no espelho, absorta. Aonde ainda um dia antes estava um verde claro, límpido, agora cintilava uma cor rubra. Sophia gritou. Seus olhos estavam lilás.

:-:

Há poucos metros do banheiro onde Sophia entrava em pânico, Michael permaneceu estirado na grande cama no canto do quarto, segurando firmemente o lençol branco que cobria seu corpo seminu.

Respirava ofegante, como se estivesse tragando o ar. Alguma coisa em seu inconsciente lhe dizia, de uma maneira caótica, que era o ar que lhe causava aquele repentino mal. Já não sentia suas pernas, e seu coração batia vacilante. Sua cabeça era uma planície enevoada, não sendo possível distinguir coisa alguma. Só entedia que respirar doía. Permitir que aquele ar gelado penetrasse seus pulmões  fazia seu corpo queimar de dentro para fora. Michael pensou ter ouvido um grito sonoro não muito longe dali. Era um grito ou era Beatles? Não poderia ser um grito, ponderou ele em sua confusão. Um grito não teria um som tão belo. Era ‘Lucy in the Sky Diamonds’, ele tinha quase certeza. Mas já como estava tocando ‘Lucy in the Sky Diamonds, alguma coisa incorpórea lhe disse, ele não precisava mais respirar. Ele não precisava mais sofrer. Michael concordou.

:-:

Lágrimas vertiam do recém adquirido lilás dos olhos de Sophia. Ela estava ficando cega, tinha certeza. Alguma doença invencível havia atingido seus olhos e em pouco tempo, estimava em seu devaneio, obliteraria sua visão. Mas um som anormal fez Sophia sair de seu transe. Era um rosnar agudo, quase uma tosse primitiva. Como quando se está muito resfriado e tenta-se respirar. Mas Michael não estava resfriado…

Por fim, quando Sophia abria a porto do banheiro e esquecia por um momento a cor dos seus olhos, um som agonizante ecoou. Alto, urgente. Sophia correu.

 Michael encontrava-se estendido na cama, embora numa posição anormal, quase inumana. O coração de Sophia disparou. Ao se aproximar, notou que um aroma adocicado pairava no ar. Quase como o de frutos, só que desagradável. Tocou de leve seu ombro, murmurando:

-Michael?

Nada.

Puxou com força o braço do rapaz, que nada fez. Sophia não respirava quando, gentilmente, girou o seu ombro.

Aquilo que viu jamais sairia de sua mente.

Os olhos de Michael eram agora negros, pupilas enegrecidas escravadas em um negrume eterno. Em sua face, como que esculpido, um sorriso débil porém encantador remanescia, sopro de consciência naquele corpo sem vida. Mas os olhos… eles eram aterrorizantes. Mesmo sem brilho observaram-na em busca de, talvez, uma resposta. Sua resposta foi um grito abafado, trôpego, seguido de um desmaio.

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Três vezes Júlia

Três vezes Júlia. Júlia muito real.

Três vezes dei rosas à Júlia. Nunca fui tão grato em relação a minha fraca memória por ser capaz de lembrar, com detalhes, das três vezes que dei rosas à Júlia. Um triângulo perfeito na geometria irregular da vida. Um fim para Júlia, Júlia-muito-real.

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Estava quente. Terrivelmente quente. Embora o sol já tivesse se transformado em sombras e a lua brilhasse irregular no canto leste do céu, o calor era absurdo. Toda a cidade pareceu ter a mesma ideia que eu e Júlia: ir para a praça central. Era um lugar amplamente arborizado, onde a trilha sonora era sempre o farfalhar constante de folhas e o riso estridente de crianças. Ficava não muito longe do apartamento que dividíamos, talvez quinze minutos de caminhada vagarosa. Fora lá que nos conhecemos, Júlia e eu, no que parecem décadas atrás. Lá pela primeira vez vi seus olhos olhando meus olhos num ciclo sem fim; pela primeira vez senti seu cheiro de Júlia-muito-real; primeira vez senti sua gravidade exercendo força sobre mim, fazendo-me não mais seguir meu caminho, pois meu caminho tornara-se apenas orbitar em torno de Júlia.

Sou grato por lembrar-me de como ela se vestia. Júlia não era uma garota de vestidos. Raramente usava um. Preferia jeans a qualquer outro tipo de roupa. Mas o calor, ah o calor (ou seria o destino?), fez a nossa heroína – para mim uma droga – usar um vestido particularmente curto naquele dia maçante de verão. Ela caminhava vagarosamente ao meu lado, como que calculando os passos, olhando distraída para nossas mãos unidas.

– Sou Júlia-muito-real. – disse-me repentinamente, sua voz estridente, quase ferina.

– Desculpe, eu não entendi…

– Você nunca entende, não é? – interrompeu, puxando-me com força – quando se trata de mim você nunca entende. Eu sou Júlia-real, não sou,não sou?

Foi a primeira vez que vi Júlia chorar. Assim como não é uma garota de vestidos, Júlia não é uma garota de lágrimas. Mas agora um pequeno filete perolado caía de seu olho esquerdo, traçando um caminho linear por sua face. Júlia estava com medo. E diabos, eu não entendia o que estava acontecendo.

– Fica calma, Júlia. Vem. – abracei-a, ela inerte como uma boneca vazia. – Eu realmente não sei o que você quer dizer com real, mas não importa. Você é muito real. Posso tocar você, sentir você. É isso que você quer saber, se é real?

Ela nada disse. Puxou minha mão de volta para a sua, e assim seguimos em direção à praça.

Assim que lá chegamos bebemos vinho. Muito vinho. Não estava muito gelado, mas mesmo assim dava uma sensação de alívio quase indescritível. Não conversamos sobre nada durante muito tempo. Alguns comentários pontuais sobre trabalho, amigos em comum. Nada muito profundo. De súbito minha cabeça parecia flutuar sobre meu pescoço. As luzes brilhavam. “O senhor está deveras bêbado, bêbinho, bêbão!” dizia uma vozinha irritante em minha cabeça.

Júlia, bons quinze quilos mais magra que eu, imaginem como estava. Se minha cabeça flutuava, a dela estava na lua tocando rock androll com Salvador Dali.

Ela tentava balbuciar algo inteligível. Aproximei o ouvido.

– Eu quero um rosa. – me surpreendi com a sua perfeita dicção. Disse sem pestanejo algum: “eu quero uma rosa”, articulando cada vocábulo com perfeição digna de tenor. Mesmo temerariamente bêbada, Júlia-muito-real foi perfeita ao se mostrar interessada por uma rosa.

Júlia queria uma rosa, portanto eu tinha que lhe dar uma rosa, minha mente aérea raciocinou. Beije sua testa – agora ela parecia estar adormecida, suas pálpebras pintadas escondendo a cor de seus olhos. Ela restou imóvel.

E eu, oh amigos, eu corri. Naquela praça apinhada de pessoas tinha tudo menos uma rosa. Não sou botânico mas creio que ali, ou no canteiros mal zelados ou entre as árvores, devia ter dezenas de variedades de flores. Mas nenhuma maldita rosa. Tropecei através das ruas mais próximas, olhos atentos em busca da flor. Topei com bêbados catatônicos, pessoas estranhas e casais felizes. Perdia a esperança quando avistei não muito longe uma rua diferente. Ali as gramas eram bem aparadas, os cercados eram brancos e as casas pintadas em tons claros. Típico bairro. Se, por diabos, houvesse lugar naquele fim de mundo para existir uma rosa, seria ali.

Só então me dei conta, bêbado como eu estava, que havia abandonado Júlia, bêbada como ela estava, naquela praça caótica. Abandonei a bela e moribunda Júlia, de vestido curto, leve, na praça. Sozinha. Semiconsciente. Naquele momento pressenti que algo de errado estava ocorrendo à minha Júlia-muito-real. Mal sabia eu que naquele momento algo de muito errado estava ocorrendo comigo.

 

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Après moi

Eu amo o som que você faz quando você se cala.

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– Você já parou para pensar que as estrelas não têm aquele formato bonitinho que os desenhos e programas de televisão sempre usam? Não deviam permitir isso.

Júlia abraçou-me mais forte. Estávamos Júlia-e-eu, ou eu-e-Júlia, mas já como não importa a ordem, Júlia-e-eu deitados em sua toalha longa e branca – Júlia trouxera ao nosso acampamento uma toalha branca, sem mais meritíssimo – observando o céu, como se em busca de inspiração divina, como se olhar para o céu nos acrescentasse, nos fizesse compreender a vida, o universo e tudo mais. Mas nada veio. Nenhum OVNI com luzes esquizofrênicas, sem uma mensagem para matar nosso filho primogênito que ainda não tivemos, nada.

O carro de meu pai, o qual eu havia furtivamente roubado essa noite, estava logo atrás de nós, faróis desligados e dele saindo um cheiro acre artificial que de certa forma se misturava com o inconfundível cheiro de natureza que exalava da pequena encosta onde Júlia-e-eu, ou eu-e-Júlia, estávamos. Havia também o contínuo mas relaxante ruído de correr do riacho ligeiramente abaixo de nós, um som quase hipnótico de movimento.

Não era apenas um lugar legal. Era um lugar fascinante. Mas Júlia não se fascinara. Ela mantinha sua expressão levemente entediada em relação ao mundo, como se no fundo ela já soubesse o final da grande piada. E não ela não tivesse graça alguma.

– Corações. Eles também desenham os corações da forma errada. Se eu fosse um cardiologista eu teria um ataque cardíaco toda a vez que visse aqueles corações perfeitamente alinhados. Você não acha isso um absurdo? – Seus olhos grandes e castanhos e brilhantes e lindos fitaram-me.

Eu assenti. E desviei o olhar. Aquele par de olhos lindos e brilhantes e castanhos e grandes têm um poder quase sobrenatural sobre mim. Quase tão grande quanto aquele par de peitos. Mas isso é assunto para outro conto. Mas caso eu tivesse, ingenuamente, ficado fitando-os por mais um segundo que fosse, estaria perdido. Não como no clichê “me perderia na imensidão dos teus olhos”. Não, não seria assim. Seria algo mais selvagem. Algo como ser atacado por eles, ser enjaulado por eles. Seus olhos me tiram a dignidade, Júlia. Diferente da esfinge, decifram-me e devoram-me.

Ficamos tanto tempo em silêncio que cheguei a cogitar que Júlia havia dormido. Porém sua voz doce e firme, quase como um gato-bebê, arranhou-me os ouvidos:

– Uma cor?

– Preto. – disse eu, de pronto, ainda surpreso pela pergunta e mais surpreso pela resposta.

Ela agora estava de cócoras, meio inclinada em minha direção, seduzindo-me com seus olhos absurdos.

– Um livro?

– O Mau Começo.

– Uma música?

– Us.

– Um medo?

– De ter medo.

– Um amor?

– Liberdade.

– Uma dor?

– Liberdade.

Ela parou. Eu-e-Júlia ou Júlia-e-eu estávamos ofegantes, aturdidos com tamanha onda de verdades. Notei, nesse instante, que sentia algo por Júlia. Soube, também, que nesse instante ela notou que não sentia nada por mim. Epifania, alguns diriam, intervenção divina, ironia do destino.

Mas nada disso. Isso e aquilo e tudo foram apenas a vida. A vida em suas facetas malditas, em suas voltas, reviravoltas, revoltas. A vida fazendo-nos provas de seu próprio gosto, caindo em sua própria queda.

Pois Júlia me beijou. Louca e descontrolada, como de costume. Beijou-me por medo e beijei-lhe por ardor.

Enquanto seus dedos percorriam-me, indomáveis, pensei alto e murmurei baixinho, um sussurro, um movimento de lábios quase imperceptível mas que minha incoerente mente insiste em dizer que ela ouviu e entendeu. Disse:

– Eu amo o som que você faz quando você se cala.

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Us

Gosto de lembrar como conheci e como deixei de conhecer Júlia. Dois pontos paralelos, duas lineares na minha nada linear vida. Talvez porque quando lembro de Júlia consigo sentir, por não mais que um breve momento, um suspiro de segundo, a completude que ela me trazia. Júlia cintilante brilhando e brilhando. Até me queimar.

Não nutro raiva por Júlia. Na verdade não sinto nada por Júlia, não mais. Sabe, o único jeito que há para sobreviver em uma vida pós-Júlia é matando-a de todas as formas possíveis. Pequenos e curtos assassinatos que perduram por horas, dias, meses. Até que chega uma hora em que tudo o que restara de Júlia não passa de uma lembrança, sombra sob o sol, como buracos que os pregos deixam depois de serem retirados.

Mas todos esses tortuosos assassinatos cobram seu preço. Todos os momentos, todos os instantes Júlia-e-eu, pescoço de Júlia e minha boca, cabelos de Júlia e meus dedos, cabeça de Júlia e meu peito, vão-se também. Inocentes, não têm culpa. Mas pagam o preço.

Gosto de lembrar de como conheci Júlia. Dia incomum, aquele.

O vento soprava e soprava, arfando as folhas das árvores, brincando com meu cabelo e enlouquecendo as folhas do livro a minha mão, já amarelas, tornando o ato de ler quase um desafio invencível. A distração era tamanha que não notei, acreditem, a garota que sentou-se não muito distaste de mim, cabelos castanhos e olhos tristes. Tempos depois descobri que a primeira impressão que essa garota teve – à época ela era apenas a garota de olhos tristes e cabelos castanhos, ainda não Júlia, minha-Júlia, e não-mais-minha-Júlia – foi a de que eu era um estúpido. Enquanto eu ainda não tinha notado sua existência ela já julgava-me como um estúpido. Ah Júlia…

Então, resumindo, estávamos Júlia e eu em uma praça poeirenta num dia cinzento, eu lendo um livro sobre viagens e uísques e tomando vinho barato, quente; Júlia… bom, além de carregar consigo uma tristeza que não condizia com seu rosto doce, ela trouxera uma pequeno caderno pardo e caneta, aonde entre um intervalo de lucidez ou outro escrevia palavras e frases e textos sobre a vida, sobre o coração, sobre os fins, confins e sobre os meios. Ah Júlia…

A primeira vez que seus olhos cruzaram com os meus foi quando ela, num gesto sinuoso, colocou seus dedos brancos e longos por dentro de sua bolsa e de lá tirou um cigarro. Acendeu-o, tragou-o e quando ela jogou sua cabeça para trás, fechou os olhos e então os abriu, esses deram de encontro com os meus. E eles ficaram lá, se encarando, por um segundo que pareceu uma eternidade. Olhos tristes e grandes e verdes de Júlia em luta contra meus olhos normais-estúpidos. Se desviaram, é claro. Mas poderia jurar que vi um breve lance de sorriso brotar em seus lábios vermelhos agora manchados pelo branco do cigarro que neles repousava.

E foi assim que conheci Júlia. Praça, vento, cinza e tristeza Foi como tinha de ser, certo?

Algumas horas depois, quando todos os livros e praças e cigarros pareciam um passado distante, quando tinha Júlia deitada ao meu lado, sua pele branca e fria desnuda à luz insistente da lua que entrava através da janela de meu quarto, pensei que ela era a mulher da minha vida. Fiquei boa parte da noite acordado pensando e imaginando como seria minha vida agora com Júlia. Observada sua respiração lenta e ritmada, o lençol subindo e descendo num fluxo contínuo e sem fim. Naquele momento bastava-me imaginar minha vida antes-de-Júlia, noites solitárias e escuras, e vida depois-de-Júlia, noites com peles brancas e frias e lençóis pulsantes. Não ousei, naquele instante, cogitar a vida pós-Júlia. Vida sem ela. Lençóis salgados de lágrimas em noites escuras e solitárias.

Se tivesse, naquela noite, ao menos pensado em tal possibilidade, talvez tudo fosse diferente. Talvez eu pudesse agora estar em uma praça, livro em mãos, tomando vinho barato e ouvindo um retumbar provocado por um grupo de adolescentes embriagados. Talvez agora eu não estivesse fugindo, cada dia em um lugar, medo constante corroendo meus ossos.

 Talvez Júlia ainda estivesse viva.

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Folding chair

             – Você se importa se eu fumar?

            – É claro que não – disse ela.

            Ele então guardou a carteira de cigarros no bolso. Não teria validade fumar senão para importuná-la.

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            A noite fervia. O rock tamborizada, rumbava, terrificava e destemia o cinzento bar. Ali estavam as mais variadas pessoas: tatuados enormes com cara de dor; mulheres voláteis com roupas de couro grudadas em seus corpos esculpidos à álcool; jovens espinhentos com piercings marmorizados crivados em sua carne; um casal. Não mais do que um casal. O interessante sobre “um casal” é a perca de identidade. Não há individualidades. Deixa-se de ser a pessoa 1 com a pessoa 2, passa-se a ser o casal 3. O unitário é destituído. Então, naquela mesa suja daquele bar sujo, não estava uma garota incomum conversando com um garoto incomum, estava um casal incomum sendo um casal . Malditos casais.

            Não trocavam carícias; encaravam-se. Fato incomum para um casal embriagado. Entretanto, como já foi dito, não se trata de uma dupla normal. Eles têm suas peculiaridades. Ela tem cabelo vermelho como fogo, sardas sob os olhos; ele tem cabelo preto como a escuridão, sobrancelhas salientes sobre os olhos. Ele colorado, ela gremista. Ele Beatles, ela Led Zeppelin. Ele leves tendências suicidas, ela fortes tendências homicidas.  Odiavam-se. Não um ódio prematuro, aquele que nasce numa fagulha e queima num instante. Não, o ódio deles era mútuo, intangível, poderoso. Ódio que beira a paixão ou paixão que beira o ódio?

            – Quer beber? – Questionou o garoto de cabelo preto. Ela não se deu o trabalho de responder; apenas acenou a cabeça. Continuou.

            – Não acredito que você vai colocar gelo no uísque. Sabe quanto tempo esse líquido que você agora ousa contaminar com não mais que água ficou parado, envelhecendo e amadurecendo, para se tornar a bebida mais sensacional do universo.

            – Não. – Então encheu o copo castanho com8 pedrasde gelo e tomou tudo em um único gole. Ele olhava perplexo. O amor é lindo.

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            Repentinamente, a garota do cabelo vermelho puxou a mão do companheiro e segurou-a não gentil, mas candidamente. Firme. Suas unhas pretas refletiam, incrivelmente, a luz fosca do bar, em contraste com sua pele branquíssima. Tocava “Folding Chair”.

            – Por que você ainda está comigo? – A voz arrastou-se, hesitante. Maldito uísque.

            Ele olhava para uma mancha específica na parede. Não sabia ainda, mas dias depois perceberia que ela era uma sombra perfeita da silhueta de Freud fumando charuto.

            Começou.

            – Eu gosto de você. Não além, nada menos. É simples. Presumo que você também goste de mim, então logo não há motivos para não estarmos juntos. A não ser que não queiramos estar juntos estando juntos, o que não implica que gostaríamos de estar juntos quando – e se – estivermos separados, mas significa que o meu “junto” difere do seu oposto. No final, é uma transcendental kantiana.

            Transcendental kantiana. Por essa ele não esperava. Nem ela. Nem eu. Embora ambos estivessem surpresos pelo fato de ele conseguir pronunciar essa palavra miseravelmente bêbado, ele não sabia o que era uma transcendental kantiana. Nem ela. Nem eu.

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            Ele a ajudava a colocar o casaco enquanto ambos observavam o local. O bar estava do jeito que um bar deve estar às quatro da manhã: fedido, pervertido, confuso e sensacional. Um outro casal – perceba a falta de unidade, de novo – lutava com admirável força para saber que consiga apertar mais o outro em lugares diferentes durante um  beijo. Lindo. Outro grupo de amigos batiam-se aleatoriamente ao som da música. Riam e vomitavam. Hilário.

            Mas o casal incomum decidiu ir embora. Não era hora para um casal incomum estar fora de casa. Não era certo.

            Caminhavam não de mão dadas, mas lado a lado, como velhos amigos que eram ou deveriam ser. Ele pagou a conta – cavalheiro – e ela fez beiço – uma dama.

            Foram através da porta, a noite mais clara do que a escuridão lá de dentro. Beijaram-se, talvez a primeira vez em muito tempo. Deram-se as mãos e moveram-se lentamente em direção ao nada.

Bela noite comum para um casal incomum.

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